Mesa de reunião em Nova Jersey discutindo políticas de acesso à psilocibina

Psilocibina em Nova Jersey: conflitos, modelos e futuro do acesso

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Nos últimos meses, tenho acompanhado com atenção as transformações no cenário legal americano em torno dos cogumelos com efeitos psicodélicos. Em janeiro, Nova Jersey entrou para a lista de estados que passaram a estruturar o acesso terapêutico a essas substâncias, após a aprovação do Assembly Bill 3852. Mas, ao contrário do que se imagina, o processo foi tenso, marcado por embates políticos, suspeitas e muita discussão pública sobre quem de fato será beneficiado por essa nova lei.

O que diz a nova lei sobre psilocibina em Nova Jersey?

Com a assinatura do ex-governador Phil Murphy, Nova Jersey criou um programa-piloto para terapias com cogumelos que possuem compostos psicoativos. Esse passo coloca o estado ao lado de pioneiros como Oregon e Colorado, reconhecendo o potencial terapêutico desse tipo de fungo em ambientes controlados.

O texto, chamado A3852, foi desenhado para estabelecer diretrizes clínicas no uso dessas substâncias, especialmente no tratamento de condições de saúde mental. Segundo o projeto, um conselho consultivo de 15 membros será responsável por definir os detalhes técnicos e supervisionar o funcionamento da política. Além disso, foram destinados US$ 6 milhões para hospitais regionais desenvolverem protocolos e estruturas de atendimento.

O modelo aprovado priorizou o tratamento em ambientes médicos, excluindo abordagens comunitárias mais abertas.

Em minha leitura, o foco hospitalar é visto por parte da sociedade como uma vitória da medicina tradicional, mas ativistas sentem que ele restringe o potencial de transformação social que a chamada “cura psicodélica” poderia trazer.

Conflitos entre modelos: medicina vs. comunidade

Desde o início, o Assembly Bill 3852 dividiu opiniões. Ouvindo relatos de quem atua na base, percebo que um dos maiores pontos de tensão está na priorização do modelo médico-farmacêutico, que pode favorecer grandes corporações e restringir o acesso popular ao tratamento.

Diversos ativistas denunciaram o envolvimento da Compass Pathways, empresa britânica que busca aprovação do FDA para seu composto sintético, o COMP360, e que fechou parceria com a Hackensack Meridian Health em Nova Jersey para criar protocolos clínicos. Para muitos, isso potencializa uma elitização do acesso.

Há críticas contundentes sobre o risco de transformar um conhecimento ancestral e popular em algo exclusivo dos consultórios e de grandes laboratórios.

Neal Usatin, do NJFPM, foi uma das vozes mais incisivas ao questionar o alinhamento entre autoridades estaduais e interesses internacionais, enfatizando a exclusão de perspectivas alternativas. Denise Rue, da NJPTA, disse sentir “frustração profunda” ao ver que o texto final não inclui sessões de integração nem medidas ligadas à justiça social, como descriminalização do uso ou expurgo de antecedentes criminais relacionados.

Comparando com o projeto S2283, apresentado no Senado, fica evidente o quanto as demandas da militância local perderam força. O S2283 propunha acesso a cogumelos naturais, apoio terapêutico integral e valorizava práticas da tradição comunitária. Já o Assembly Bill 3852, de última hora, abandonou boa parte desses pontos considerados “não negociáveis” por quem atua no dia a dia da questão.

A entrada de grupos nacionais e indígenas

A frustração dos ativistas locais também tem origem na atuação de grupos nacionais de lobby, como Reason for Hope e VETS. Denise Rue relatou a sensação de que o trabalho de base feito durante anos acabou sendo ignorado em prol de interesses externos. Josh Alb foi ainda mais longe, denunciando que as ações desses grupos não dialogaram com representantes indígenas das tribos Nanticoke Lenni-Lenape, Ramapough Lenape e Powhatan Renape.

“Há uma dívida histórica de reparação. Não fomos ouvidos”, apontou Alb, exigindo inclusão real.

Essa ausência de diálogo foi confirmada por outros líderes municipais. Os choques se intensificaram quando Jesse MacLachlan, diretor da Reason for Hope, afirmou em público buscar “abrir espaço para todas as vozes”. Mas Neal Usatin rebateu: “Isso soa bem, mas não reflete a verdade. Não fomos consultados de fato.”

Pontos do Assembly Bill 3852: avanços e limites

Apesar das críticas, a lei tem alguns pontos que merecem análise com calma. Com um conselho consultivo composto por 15 pessoas, a definição das regras técnicas pode, se for aberta ao diálogo, suavizar certos entraves. E o texto prevê explicitamente que os critérios para cadastro de fabricantes não podem excluir os cogumelos em estado natural, o que ativistas veem como uma concessão, ainda que limitada.

  • Criação de conselho consultivo estadual
  • Aporte financeiro de US$ 6 milhões a hospitais regionais
  • Proibição de excluir fungos naturais nos critérios de regulamentação
  • Predomínio do atendimento em contextos hospitalares

Nem tudo, porém, é consenso; a expectativa quanto à atuação desse conselho será decisiva para avaliar se o acesso será mesmo plural ou se penderá para interesses corporativos.Debate em sala entre legisladores e ativistas sobre psilocibina em Nova Jersey

O próximo embate: S3148 e o futuro do acesso

Não demorou para uma nova rodada de disputas se esboçar. Já tramita o projeto S3148, apresentado pelos senadores Scutari e Vitale. Ao ler sua proposta, percebi diferenças fundamentais em relação ao modelo do Assembly Bill 3852:

  • Centros de serviço não hospitalares, abertos para residentes acima de 21 anos
  • Acesso facilitado aos cogumelos naturais, e não apenas compostos sintéticos
  • Sessões obrigatórias de preparação, administração e integração
  • Papel permanente para abordagem comunitária, em vez da atenção apenas médica

Esses pontos aproximam o S3148 dos ideais defendidos por diversos grupos que buscam um modelo mais democrático. Curioso notar como tanto representantes de Reason for Hope quanto militantes da base reconhecem a chance de coexistência entre sistemas hospitalares e comunitários. O desafio, segundo Usatin, é garantir que as empresas farmacêuticas não travem o crescimento de um mercado natural até que percam suas patentes.

Centro comunitário moderno para sessões de psilocibina, pessoas reunidas em roda

Sentimentos dos ativistas: frustração e cansaço

Conversando com representantes dos movimentos, ficou claro para mim o sentimento, quase unânime, de cansaço e incredulidade diante da falta de escuta dos tomadores de decisão para as demandas históricas da comunidade. Muitos relatam sensação de terem sido “usados” por interesses que vieram de fora e que a vitória parcial ainda está longe do que se sonhava ao iniciar o debate sobre cogumelos psicodélicos em Nova Jersey.

“Não é só sobre remédio, é sobre justiça e inclusão social”, resumiu Denise Rue, da NJPTA.

Com a troca de governo, cresce a expectativa de que a luta pelo novo projeto, o S3148, traga de volta as pautas de democratização, sessões integrativas e reparação histórica dos povos indígenas. Isso pode redefinir completamente a rota do estado no tratamento dos fungos medicinais e psicoativos, algo que também abordo em outros conteúdos da Doutor Cogumelo.

Coexistência possível ou bloqueio corporativo?

O futuro é incerto. A tendência, pelo que observo, aponta para a criação de dois sistemas paralelos: um hospitalar, sob forte influência de laboratórios e da FDA, e outro comunitário, baseado em práticas integrativas e no acesso a cogumelos em sua forma natural.

Se essa convivência será pacífica ou marcada por conflitos judiciais e políticos, depende de como o S3148 será construído.

O debate está longe de terminar. Lendo opiniões dos dois lados, vejo que a disputa vai além da escolha terapêutica: trata-se de garantir inclusão, respeito à diversidade cultural e justiça social. São temas que motivam os conteúdos do portal Doutor Cogumelo, sempre atentos à construção de um universo dos cogumelos mais plural e acessível.

O que esperar dos próximos passos?

A pauta dos cogumelos e seus potenciais segue em transformação acelerada. Se você se interessa pelo contexto legal, usos medicinais, curiosidades e debates envolvendo esta e outras espécies de fungos, recomendo acessar conteúdos como o acervo de conhecimento do nosso site, assim como a seção dedicada à medicina dos cogumelos.

E, claro, para mergulhar ainda mais fundo em outros usos e benefícios dos fungos, destaco dois guias práticos publicados recentemente: o guia completo sobre chaga e o artigo sobre usos e precauções do cordyceps. Quem gosta de saber das novidades e curiosidades deste universo também pode conferir a seção de curiosidades da Doutor Cogumelo.

Com o cenário da psilocibina mudando tão rapidamente, acredito que acompanhar debates, ouvir múltiplas vozes e defender a pluralidade de acesso é o melhor caminho. Fique atento às próximas movimentações legislativas e aprofunde seu entendimento conosco. Juntos, podemos construir um universo do cogumelo mais informado e acessível a todos.


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